Dispositivos de Existência

 

Normalmente o que mais esperamos das pessoas são reviravoltas para manter nosso ego estabilizado. Isto se dá por meio de elogios, palavras que se encaixa bem no momento, um ouvido pronto a nos ouvir, ainda que seja falso e não ouça nada daquilo que verdadeiramente deveria ouvir etc.

Não importa, o que importa é que nosso ego esta sendo reverenciado por alguém cujo conteúdo também não importa.

Este caminho pode perdurar a vida toda, tão bela como as apresentações do circo de Soleil. Entretanto, podemos ir mais além e pensar no fato de que precisamos de algo a mais. Algo que grita dentro de nós, que precisa de mãos, ouvidos, silencio. Esse algo vai sendo silenciado pelas manobras dos interesses orgulhosos.

Esmurramos fortemente este outro ser que clama dentro de nós toda vez que buscamos os caminhos inautênticos, uma vez entendido que esses caminhos são mais imediatos e mais fáceis. Mas a sua única essência é a ilusão esmagadora que nos rouba a consciência de si.

Em função disso tudo acumulamos de forma exagerada os “dispositivos de existência”, isto é, tudo aquilo que acumulamos sem os quais não conseguimos viver ou até mesmo existir. Acumulamos coisas ou pessoas, estas viraram coisas também. De modo que criamos uma redoma que sustente a nossa vida, por vezes, miserável e cinzenta.

Uma vez tirando esses dispositivos de existência dos indivíduos, os surtos serão inevitáveis, pois, a percepção do próprio vazio será esmagadora. A insurpotável realidade do isolamento e o encontro consigo mesmo será encarado como a própria morte. Tiremos, pois, os dispositivos de existência: computadores, celulares, bailes, internet, chefes que os digam o que fazer, professores que faça girar o círculo vicioso dos papagaios etc. Aí, veremos o nosso real estado. Esses são motivos pelos quais adoramos chefes, Doutores, Jornalistas, Estado, Igrejas e seus líderes, sem os quais não saberíamos o que fazer, nem mesmo o que pensar.

Seria como se a vida estivesse em um lugar recôndito ou escondido, que um dia alguém trará para nós numa caixa dourada e envolta  com uma fita vermelha, isto é,a vida se dá  em algum lugar mas nunca em nós mesmos.

Cursos são feitos, diplomas são acumulados, deuses são almejados, mas a vida a partir da nossa própria existência não é cogitada.

Corremos de um lado para o outro apenas para preencher o vazio que denuncia essa nossa falta de vida autentica. Uma vida que se manifeste por ser simplesmente vida, e não um apetrecho concedido pelo “admirável mundo novo”, ou uma mercadoria que julgamos ser necessário para melhorar nossa existência.

No desespero abrimos mão de nossa liberdade para participar do entorpecimento grupal revestidos de toda sorte de dispositivos de existência racionalizados pelas instituições.

Seremos realmente livres, se vivermos a partir da própria vida que existe em nós, que se manifesta pelo dinamismo, ou é caracterizada pela espontaneidade. Portanto, esta vida não pode ser engendrada ou formatada por alguém ou por um sistema econômico.

“Se o indivíduo realiza seu eu por meio de atividade espontânea, relacionando-se assim com o mundo, cessa de ser um átomo isolado; ele tem seu lugar certo, e assim desaparecem suas dúvidas a respeito de si próprio e do sentido da vida. Esta dúvida nasceu do isolamento e da mutilação da vida; quando ele pode viver, sem ser compulsivamente nem automaticamente, porém, espontaneamente, a dúvida se dissipa. Ele se dá conta de si mesmo como um indivíduo ativo e criador e reconhece que só há um sentido para a vida: o próprio ato de vive.

Se o indivíduo consegue vencer a dúvida básica quanto a si mesmo e a seu lugar na vida, se ele se relaciona com o mundo abraçando-o no ato de viver com espontaneidade, adquire força como indivíduo e alcança segurança… “- Erich Fromm.

 

Osvaldo Costa

 

 

Publicado em 13/01/2012, em Livros de Filosofia e marcado como . Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

  1. Rodrigo Fernandes Da Silva

    professor gostei da sua visão sobre a vida!!acho que eu vo gostar de filosofia,apesar que eu não gosto de ler muito!!

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